Namorado, III

É o terceiro ano que escrevo-te e inicio esta com uma confissão: a escrita parece não fazer mais nenhum sentido, mas sinto a penumbra e a ternura dos deveres e desejos de fazê-la. Afinal, nunca houvera sentido algum, apenas magnetismos consentidos, ora nulos em fervor, ora possuídos em glamour.

Ah, namorado, o último ano foi lastimável, ladeira abaixo, é o que dizem. Um misto de paralisações desenvolvendo-se, um emaranhado de pensamentos tenebrosos, inseguranças gigantes engolindo a mente e a alma, o corpo e os ensinos devorando tudo quanto possível. Morri, e tu sabes.

Por estes e por muitos outros, já nem sei por que escrevo-te, nem por que ainda penso em beber do teu gin e ficar por adormecer dentro do seu abraço. Mas sei por que os olhos sorriem ao observar-te feliz em suas próprias alegrias – sorria mais, faça e seja mais disto!

Preciso dormir a alma. Refletir o desisti! O sentido é a distância ou a presença? O silenciar ou o afastar, os desinteresses ou as diferenças? As indiferenças? São muitas, e contudo, não são. Somos apenas barcos navegantes por oceanos distintos rumo às obscuras descobertas.

Não sei em qual destino nos tornaremos, se, mas concluo o pensar nas próprias e egoístas questões: somos âncoras, queremos a embarcação! E tu já decretaste oceanos e portos, portões e portais, enquanto que eu, ainda sinto-me (e estou) presa (afogada) dentro de uma poça d’água – o aprender a nadar serve a quais situações?

Sinto-me acordada mesmo dormindo (sempre) e, quando desperta, vigilante em não pensar-te mais. Não desejo-o, mas desenho-o em alguns riscos poéticos porque ainda quero-te dalguma forma em nossas vidas.

Por isso, acendi uma vela para incluir-te, não sei fazer os rezos necessários, não oro o Pai Nosso e nem sei citar os grandes homens dos escritos. Criei uma lista de presentes inúteis, mas gentis, desenhei brinquedos fofos: balões, navios, aviões e bonecos de madeira que contariam histórias nas sextas-feiras.

Perdão, há ilusão enorme! Não aprendi a fazer nem origamis, nada! Nenhum barco, chapéu do soldado, florzinhas e nem os passarinhos que sempre gostei. Tentei aprender magia com trigo e fermento, e para variar desisti de tentar.

Agora busco nos antiquários um velho enfeite que voava na varanda da casa – passarinhos azuis. Lembrei deles quando sonhei conosco e quando morri, também. Em algum momento senti a saudade, o sentir, a responsabilidade, a falta e o lamento. Tu sabes, mas não imaginas como essas cinco situações unidas acabaram comigo.

Eles nunca verão; nos sentimos. Eu morri comigo! E acabei com todas as formas de colocar-me na vida. Acabada estou, sentada num palanque de circo, sentada cotando preços na internet, sentada regulando leitos fúnebres, sentada na cadeira matriarca de dona da casa, sentada observando o prato de bacon e o copo de leite no café da manhã.

Preciso de mais um café antes de terminar. Sabes preparar ovos mexicanos, amor? Posso cambiar a frase educada do bom dia por mais uma pergunta? Tem café? Eu não sei cozinhar…

Namorado… do que necessitas?… do que precisar! “Apesar de tudo, isso também passará”.

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