Fluxo interrompido



O afeto esfriou. Um frio que escala a femoral, a ilíaca e congela a veia cava inferior. O átrio não suporta, morre sufocado. Não há ar que aqueça tanta indiferença, sofrimento, mazelas. O corpo social emergiu em colapso. O que antes pulsava em rede agora se retrai como capilar que perde o fluxo. Eu vi Èsú no BRT. Ele estava parado, aguardando a carroça que leva a gente. Levava uma sacola com garrafas dentro, uma guia branca com azul no pescoço e um chapéu gasto. Entrou comigo. Não sentou. Ficou na porta, falando com quem quis ouvir. Nos primeiros segundos, não quis ouvir. Fone alto, sem óculos, me torno uma cega-surda, e confesso: sendo passageira, eu gosto. Mas ele sussurrou meu sonho e minha escrita como quem gritasse bem na minha cara. Tirei os fones e percebi que não era a única a ouvir. Entre frases “desconexas” e um assunto comum a todos, ele deu seus recados. A empatia, outrora artéria viva, se tornou cicatriz mal fechada. Cada comentário é uma transfusão falha, cada relato um infarto de consciência. Mas naquele instante, dentro do ônibus, o sangue social parecia querer circular outra vez. Èsú, com sua sacola e seu verbo quente, cutucava nossas veias, fazia o pulso do mundo latejar. A rua pulsa, mais viva do que nunca. Ele desceu. Seu movimento ficou. Sua pedra rolou como discurso e possibilidade por toda a viagem. E ali compreendi: talvez o caos fosse a desfibrilação simbólica da cidade, o toque que reanima o corpo social paralisado. Se o sangue de outros corpos não nos consome a alma, o que hoje nos faria olhar para o outro? A circulação entre nós foi interrompida. O calor humano não alcança mais o miocárdio coletivo. Mas, às vezes, um gesto, um olhar, um Guardião disfarçado em homem simples é o sopro que impede a necrose. O noticiário tendencioso é o novo batimento cardíaco da cidade. Eu, cética e crua que sou, penso que são cento e vinte a menos me alvejando. Na lista, apenas um me chamou atenção: quatorze anos. Nem conheceu prazer na vida. Foi amado? Sentiu o êxtase de um verso sussurrado na alma? Não amou. Conheceu a dor, o ódio, a indiferença? Tudo é escolha, mas não dá para exigir amor, acolhimento, compreensão. O corpo social exige reanimação, mas faltam mãos que toquem. Nem sempre a dos pais. Nem sempre falta os pais. Toda moeda tem dois lados, mas só de um lado vem uma face e seus louros. Entretanto, o valor é o mesmo. E o preço, inevitavelmente, é cobrado. O sangue não distingue quem o derrama, ele apenas escorre. Eu sinto o mundo me congelando toda manhã. As veias da alma parecem contrair-se com a realidade. Mas, ao mesmo tempo, aqueço meus pés quando vejo quem amo se empenhando, do jeito que pode, para mudar a realidade dos seus, dos meus, de outros. São pequenos vasos ainda vivos, resistindo ao colapso deste tempo. Olhar para o outro não é apenas ver com os olhos. É sentir com o coração e pensar com compromisso, com a lucidez e a serenidade de quem conduz com alma e cuidado. É restaurar o fluxo, abrir caminho para o sangue voltar a circular entre nós. O mundo sangra, e nós seguimos anestesiados, acreditando que a dor alheia é notícia, não espelho. Mas, às vezes, Èsú veste corpo de gente cansada e chapéu puído, entra no trem e o espelho fala. Nos lembra que o sagrado não mora nos templos, mas no ponto de ônibus, na conversa atravessada, na palavra que te desperta no meio do trajeto. Porque o asfalto da rua é altar, e toda estação é encruzilhada, e quem caminha distraído perde o recado do caminho. Èsú vem para nos fazer andar com consciência, nos lembrar que o zelo e o afeto sincero, ainda que doa, é o único anticoagulante possível da humanidade. Èpà Èṣù!

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