Qual o gosto do seu café?



Olá, cactos. Obrigada por esperar.
Era pra esse texto ter subido mais cedo, quando o sol ainda bocejava entre nuvens. Mas a verdade é que o corpo pediu descanso, e eu obedeci.
Tomei um gole de café às sete, nem sentei. Saí apressada, o copo derretendo de quente, e o coração com um só rumo: cama e cobertor. Peguei um engarrafamento daqueles que testam a alma e o humor. O tempo parado me olhava pelo retrovisor, e eu só respirava pra não desabar.
Tem dias em que viver é estar presente mesmo quando se está exausta. E eu estou?
Cheguei agora há pouco. Não fiz café. Só existo jogada no sofá. Respiro e escrevo, tentando achar sentido entre o compromisso e as horas que me engolem.

O refeitório do hospital cheira a pão, gordura e falatório. A pressa e a hipersensibilidade não me deixam sentar. Mas percebo no canto, o moço que tira foto dos ossos comendo devagar, em silêncio. Ele tem uma suposta calma que não cabe no olhar, um refletir que parece ver além. Enquanto saboreia o instante, desvia, envia, parece que pensa longe, talvez em algum verso invisível. Eu evito, mas aprecio. Os olhos dele pousam num ponto que não sei nomear. Há vida oculta.

A gente desaprendeu a apreciar sem os olhos do interesse. O café, o silêncio, o rosto alheio, o tempo das coisas. Tudo virou interesse, oportunidade, tarefa, networking. Quando foi que deixamos a magia do milagre se tornar rotina?

Hoje a escrita me pediu lentidão. Pediu pra eu parar de tentar entender e só sentir. E descartar o que não era meu.
O corpo agradece. E a alma, aos poucos, se realinha. Tem uma sabedoria antiga nisso: às vezes é o esgotamento que abre espaço pro divino entrar.

Como está o seu relacionamento com o divino?

No meio da minha pressa, encontrei um parente antigo na calçada. Perguntei sobre a vida dura que ele leva.
— Estou indo buscar minha bebida.
Perguntei se estava se alimentando, se tinha onde cozinhar. Disse que tinha ido ao médico fazer exames de sangue e tomou vitaminas na veia porque não estava conseguindo comer. Eu tinha uma caixa de bombom que acabara de ganhar. Dei pra ele. Um gesto que parecia banal, mas me atravessou feito prece. A vida é assim: a gente oferece doçura sem saber que pode estar ofertando o único gesto de ternura que outro terá em muito tempo. Mas a sabedoria é regrada: Toda escolha tem um preço.

Agradeço. E difícil agradecer pelo que dói, pelo que não deu certo, pelas horas pesadas. Mas o sentido sempre se revela. A vida é um altar improvisado, um olhar breve que resgata algo apagado em nós.

Não fiz café, mas sinto o cheiro dele em algum lugar. Não há energia pra recomeçar, mas eu vou precisar cavar ela.
Aprender a mastigar a alma mais lentamente a fim de não se engasgar em tantas mazelas…

Bom dia. Tem café?

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