A delicadeza de continuar.

Dê passagem ao novo. Deixa que o novo encoste de mansinho, reticente, como quem pergunta se pode entrar. Não peça permissão. Apenas faça. Escreva as memórias que insistem em voltar e queime-as com a mesma brandura de quem acende uma vela para si mesma. Enterre o antigo. Deite o velho no chão úmido do tempo e cubra a dor com sorrisos sinceros e delicados, esses que ainda não aprenderam totalmente a existir, mas já tentam.

Estas tuas palavras respiram como mitos recém-despertos. O fogo a que entregas memórias é o mesmo fogo que Nietzsche chamaria de vontade de renascer. E o velho que deitas no chão úmido é como uma máscara que Pessoa abandonaria ao perceber que nenhuma persona é eterna.

O silêncio, a culpa e a insegurança não precisam mais do teu colo. Eles já pesaram demais. Agora são fios de brisa cansada; restos de vento.

E enquanto respiras, quase sem perceber, uma parte tua se desloca devagar, como se algo dentro de ti chamasse outra coisa ainda mais funda. Há vozes internas que se escutam entre si, cada uma buscando um lugar, cada uma buscando uma forma de te devolver a ti mesma.

Essas vozes internas são as tuas heteronímias ancestrais. São fragmentos de mundos que te habitam. Pessoa sorriria para elas. Nietzsche as chamaria de eterno retorno daquilo que precisa ser integrado.

Solte-se. Não prenda a palavra. Respira como quem tenta lembrar o próprio nome. E reescreva a sua versão mais linda, mesmo que ela tremule, mesmo que ainda seja feita de imperfeições. Sua história não é perfeita. Ainda bem. A vida, no fundo, não exige perfeição, mas coragem de continuar respirando nos dias em que tudo aperta e o coração fica sufocante.

Levante. O chão nunca foi o seu destino. Há caminhos que só aparecem quando somos capazes de não nomeá-los. Há ancestrais grandiosos esperando o nosso passo menos tímido, menos medroso. Há outros céus aguardando o nosso voo mais corajoso. A alma se alonga até onde o sonho ousa. E o movimento, esse gesto quase inútil e ao mesmo tempo sagrado, acende a cura.

E quando você se ergue, mesmo que devagar, mesmo que só até a metade, algo dentro de você se ajeita. Não é triunfo. Não é força heroica. É apenas um pequeno assentir da vida. Uma espécie de sussurro que diz que continuar é possível, mesmo que sem brilho, mesmo que sem certeza. E esse quase nada, essa respiração que volta aos poucos, já é esperança suficiente para hoje. É isso que te leva, sem pressa, a seguir o próximo passo.

E então, quando esse quase nada acende em ti, Cassie, o mito se cumpre, o mundo interior se reorganiza. Não há glória nisso. Não há espetáculo… Porque seguir adiante, mesmo titubeante, é o gesto mais divino que existe. Nietzsche diria que é quando crias a ti mesma e chamaria isso de criação de si. Pessoa diria que é quando te fragmentas para poder te reencontrar. As ancestralidades chamariam de continuidade. E tu, sem nomear, apenas segues. Eu digo: é quando a tua alma ancestral finalmente se autoriza a continuar sendo. E isso, para hoje, é mais que suficiente.

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