As flores lembram que existe ternura…


Tenho comprado flores nos fins de semana. É um gesto pequeno, quase invisível, desses que o tempo não grita, mas a alma agradece em silêncio. As manhãs chegam lentas, trazendo um cansaço antigo que se apoia na porta, enquanto o sol, ainda tímido, se debruça sobre a varanda como quem observa a vida dos outros. Eu ergo o corpo meio trôpega de sonho e caminho até a feira, esse mundo onde aromas, vozes e cores se misturam ao pó das calçadas e ao rumor doce da existência.

Compro flores como quem reza uma esperança antiga. Não é vaidade, nem costume. É um pedido de desculpas ao próprio coração por tê-lo deixado à margem da pressa dos dias. As flores lembram que existe ternura no que dura pouco, que o perfume é uma espécie de eternidade breve e que a beleza, mesmo quando silencia, ainda fala. Escolho-as com a ponta dos olhos, sinto o veludo das pétalas, o orvalho disfarçado em frescor, os segredos que cada uma parece guardar. Umas são tímidas, outras se abrem em riso, e todas sabem desse mistério de existir. O florista já me reconhece e me entrega o buquê com a delicadeza de quem entende que certos sentidos não precisam ser ditos.

Em casa, o silêncio me espera com um ar de quem compreende tudo. Arrumo as flores com um gesto antigo e o som da água ao tocá-las é quase uma bênção. A sala se perfuma de memória. Tem cheiro de café, de chão encerado, de manhãs que nunca mais voltam. As flores respiram comigo, se tornam companhia, presença, testemunha. Elas murcham, é verdade, mas aprendi a reconhecer a beleza do desfalecer das coisas sinceras. Não temo mais o fim quando ele vem com doçura. Cada pétala que cai me ensina a deixar ir, a permitir que o ciclo se cumpra sem sobressaltos. Viver é aceitar, é perder e permanecer, é ternura e tempestade.

Tenho comprado flores para lembrar que estou viva. O mundo é áspero, o coração se cansa, o corpo às vezes se esquece do espírito. Mas quando o perfume se espalha pela casa e as cores me fitam, algo em mim se aquieta. Sinto o toque das pétalas como se fosse a mão morna de uma lembrança ancestral. Sinto o aroma como uma prece. Sinto o tempo pulsar como coisa viva.

E então, quando a alma abrandada se recolhe para dentro, confesso à Vastidão que me escuta que ando cansada dos ruídos do mundo. O homem esqueceu o rumor das águas. A mulher esqueceu o poder do silêncio. Os deuses, talvez por amor ou misericórdia, recolheram-se em brumas. Mas ainda há remendos de luz. Ainda há quintais onde o vento conversa com as ervas e uma vasilha de barro guarda o frescor do orvalho. Ali, onde o tempo caminha descalço, ergue-se o altar dos simples: um canto, um copo d’água e uma flor. Ali repousa o mistério. A pureza não se compra, se conquista no recolhimento. A flor é o verbo da terra, fala mesmo muda. E a água é memória viva, guarda o que fomos e o que podemos voltar a ser.

Escrevo ao Universo: vem soprar nas frestas do meu corpo a lembrança antiga que te pertence. Vem acender em mim a luz que deixei esquecida pelos séculos. Faz de mim um templo sereno onde as dores se dissolvam como sal no rio. E quando o mundo pesar demais, recorda-me com ternura que onde há um canto, um copo d’água e uma flor, há cura.

Que dezembro te encontre com a coragem de cultivar pequenos milagres. Que a compra de uma flor, por mais singela, se transforme em um exercício de presença, um lembrete silencioso de que a alma também precisa de beleza para respirar. Ao colocar um vaso na mesa ou um ramo sobre o altar da casa, permita que esse gesto se torne oração. Sinta a flor abrir caminhos dentro de você, diluir memórias pesadas, acalmar arestas internas. Que o perfume delicado seja um chamado para repousar no colo da própria vida, para ouvir a sabedoria que as plantas sempre sussurram aos que sabem repousar um instante. Que D-us ilumine teus dias com fartura de paz, que dezembro cure o que ainda dói e prepare o terreno do teu renascer. Que esta semana seja um convite para experimentar a simplicidade como medicina, a suavidade como proteção e a beleza como forma de oração.

Cassiane Souza | temflor.com

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