
Nós somos rios. Rios são sagrados. São rezos líquidos.
Rio é vida fluindo, é mansidão, é turbulência, é cheia, é rasa.
Somos como rios, filhas e filhos correndo em leito próprio, feitos de água, de carne úmida, de memória salgada e de travessias que sangram e curam.
Água calma que acalma e também afoga.
A mesma água beija e castiga, depende do que o coração leva para o mergulho, de como oferece, de como chega, de como toca.
Somos águas.
Quem ousa se banhar em nós precisa pedir licença e aprender a respeitar nossas oscilações, nossas luas secretas, nossas buscas e silêncios, nossas marés, nosso tempo.
Somos águas que tudo sentem, que tudo percebem, que às vezes regozijam e às vezes engolem.
Há corpos que nos atravessam, nos tocam, nos abrigam.
Adentram os leitos mais profundos, abrem riachos de mel e sal, mergulham nas fontes mais delicadas e veladas.
Mas há os que confundem desejo com destino, calor com sede, fome com vontade, e querem beber demais, sempre mais.
Só o próprio rio conhece o limite do seu leito, portanto, quem impõe limite ao rio é o próprio rio.
Nem toda sede merece o mesmo rio.
Algumas almas não sabem beber: confundem espelho com abrigo ou refúgio, mergulham apenas para alcançar o mar.
Por isso, nós, rios, devemos fluir em calmaria.
Devemos saber o curso do nosso destino, saber virar amar — vir à mar, aramar.
Haverá desejos de engolir corpos, haverá quem queira sentir o perigo e o consolo, porque sabe que somos o beijo doce e o açoite.
Mas somos rio: manso à primeira vista, feito de véus que escondem o que há de mais sagrado.
Nem toda sede é para ser saciada.
Ninguém mergulha no mesmo rio duas vezes, nem o rio é o mesmo, nem quem mergulha.
O tempo muda o curso, o sal apura o espírito, e o oríkì das águas canta outros nomes a cada volta.
Há almas que nos chamam de volta, com olhos de mar e promessas de calma, mas sabem que não somos para elas.
Há mares que são feitiço, há ternuras disfarçadas de afeto que afogam em fundo seco, há correntes que parecem zelo, mas são ritos de aprisionamento.
Por mais quieto que pareça, há correntezas que só a boa escolha acolhe.
Isso serve para quem é mar, para quem é terra, para quem é fogo e para quem é vento em febre — que só deseja o caos.







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