Maresia



Tem uma vantagem nesse lugar. A maresia.
Ela me lembra do cazuá. Dos porquês.
Das idas, das vindas.
Ela traz na brisa o cheiro de existência,
mesmo com roupa que não veste a alma.

Eu deixo que ela me toque devagar,
como quem extermina uma memória antiga
e brisa, com cuidado, para não desfazer os castelos de areia que ainda estão ali, olhando a onça.
A maresia nos chama por nomes que só o vento sabe, nos envolve em sal e sol e nos devolve ao que somos… peixes, corpos celestes, caboclos.

É assim que esse lugar, destruído pelo tempo e pelo homem, reverencia a velha vida…
Um altar de água de baía, ar íntimo e sagrado.

Há um instante em que o coração pertence, respira fundo, e a mente veste o corpo com o que falta… escamas, folhas, búzios, fios.

Há um instante em que tudo parece silenciar
e o estar traz seus recados, escritos antigos
que o mar sussurra.

A maresia faz morada nas ondas, acariciando o que está prestes a desabar.
Um raio do nosso Pai e tudo vira onda e espuma.

É um aconchego salgado, uma vida que se curva em gratidão.
Porque, aos olhos, pode parecer ruína e descuido,
mas há seus brilhos nas rachaduras, nas fendas, nos rochedos que seguram os grandes almacenes.
Há o nosso àṣẹ escondido nas dobras do tempo,
nossos ancestrais nos zelando.

E quando o corpo se aquieta, a alma veste sua melhor roupa…
Ela parece saber voltar aos lugares que quis desver, parece me fazer lembrar dos avisos que não anotei.

Meu orí é uma bênção, e quem me abençoa não deixa nada sem seus ajustes.
Nada passa, nem agulha, nem camelo.

A gente precisa se olhar no espelho.
Não o da rua, não o de casa,
o da alma.
Calunga grande, me faz grande
onde quem me vê, menor.

Sempre saiba voltar para o seu cazuá, mas só quando for chegada a hora. Até lá, viva. Sobreviva. Há verdades que precisam ser cavadas além das areias do mar…

A maresia, essa velha benzedeira,
venta forte o que não devemos ser,
sopra devagar sobre o que fomos,
abençoa o que somos
e abre caminho para o que ainda teremos
que criar coragem pra ser.

Orí mo pé o.

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