E se nunca tivéssemos sido poetas?

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Descobri que não sou poeta; não passo de uma alma muda, perdida neste gesto de terra que me jogaram. Poetisa? Quem será que inventou isso? Poetas sofrem angústias apaixonadas; delírios febris; colapsos românticos. Se um dia estive poeta, já não estou; não nesta vida vadia. O poema é uma fantasia luxuosa; ironias fantasiosas de uma vida bela ou triste. Que raios faz o poeta acreditar que pode tecer mais fio nestas estrofes tristes e sem vida? Por mais que haja, ela é uma indolência excessiva; por mais que falhe, ela é uma palavra pervertida, viciada e chorosa. Ah, como os poetas sofrem; ao menos em seus textos, escorrendo lágrimas e tormentos amorosos. O que será o amor para o poeta incompreendido e mal-amado? Se amas, jorra líquidos melosos, ardilosos; entra em estado de êxtase apaixonado. Se traído, constrói muros e muralhas, murmurando uma guerra morta. Mas o poeta é um real platônico; ele vive seu conto; ele chora a lágrima; ele ri do riso; ele ama a ingrata. Poetas sofrem livros; cantam ritmos; pintam aquarelas colunistas. Batizam filhos com seus personagens; declamam suas incoerências para pedras, flores e advogados e médicos céticos. Os poetas são deuses. As poetisas são suas mães enlouquecidas. E ainda assim, escrevem; cansados, sufocados, insistem. Nem sempre por dom ou por febre; mas por bebedeira antiga. Porque abandonar a palavra seria morrer com o lápis em cima da mesa. O poeta vive, mesmo descrente, mesmo gasto e falido; escreve com as sobras, com as migalhas, com as próprias falhas, mas com arpejos. Não há glória. Há insistência nas vírgulas. E um estranho alinhar de palavras, como quem empilha pedregulhos; todo poeta é uma pedra bruta lapidando a inteireza, a emoção, o sentimento, a experiência. Ainda és poeta, mesmo que já não deseje escrever; não é uma escolha justa, não é escolha em si; a incapacidade de calar a palavra vem de outras existências.

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