Saiu Cedo

Ela levanta e olha o tempo, como se estivesse desabando na praia, ou como quem vê o quanto será longínquo este dia. Escova os dentes, não arruma o cabelo; tanto faz, são cinco horas da manhã, ninguém vai perceber, olhar ou observar. Então, não se preocupa em colocar a melhor roupa.

A coruja ainda está pousada na ponta do telhado, vigiando a casa e o sono não chegando.

Onde andará a menina que ontem habitava em constelações conosco? Caminha em passos lentos, desacelerados, quase paralisando o respirar, quase desmontando nas próprias pernas. No silêncio do dia, um som perceptível.

Ela não se preocupa e não se assusta. E se depara com o quadro vivo nascendo entre a escuridão sombria e o nascer do dia que raiou mais uma vez com olhos abertos. Estamos aqui, novamente, observando o vento, os barcos e o silenciar da voz.

Desculpa, não quero ser mais forte. Quero poder ser fraca. Chorar sem precisar esclarecer as confusões. Sorrir sem o peso.

Um encontro enamorado: ela e o oceano inteiro de ondas agressivas, que com ferocidade e ternura vão batendo, debatendo, arrancando, molhando as vestes. Alguns minutos depois, lá estão, esticados na areia, como quem não tem vida ou força para se manterem em pé.

O vento calou, as ondas se retiraram, e mais silêncio ficou. Um absoluto som do universo ou seria do abismo à frente? Ouvi o lamento entre nuvens e raios solares que reluzem os olhos, ora encharcados de lágrimas, ora brilhantes do sal.

Um amor à céu aberto, esse encontro. Um orgasmo e duas sentenças. O sol não se faz mais presente; nuvens carregadas acabam lavando todos os vestígios dessa breve intimidade.

Seu corpo permanece estirado no chão. As vestes transparecem a pele totalmente arrepiada do frio, e os lábios estão levemente arroxeados. Parece olhar o barco que aponta na igreja, parece recitar “om mani padme hum” para o sol, parece que reza uma prece com o marujo, parece que resmunga com a mãe.

Na verdade, adormeceu ou simplesmente apagou por alguns minutos. Eu não sei.

Desperta por novas ondas, agora evoluídas em grandeza e força, ondas que a jogam para dentro do mar e acabam com todo o resto de fôlego.

  • Acorda, não encharque mais as rosas, acenda a fogueira.

Que a Luz seja presente.

O Mar do Gajeiro por Cassiane Souza em temflor.com

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