
Shemot significa “Nomes”. O segundo livro da Torá não começa com feitos, milagres ou leis, mas com nomes. Como se a sabedoria ancestral estivesse sussurrando que todo processo de libertação começa pelo reconhecimento da identidade. O Zohar comenta que enquanto os filhos de Israel mantiveram seus nomes, sua língua e sua memória, não foram completamente engolidos pelo Egito. Perder o nome é o primeiro sintoma do cativeiro interior. Quantas vezes, em silêncio, você tem vivido sem se chamar pelo próprio nome?
Entramos em janeiro, mês marcado no Brasil pelo Janeiro Branco, um convite coletivo ao cuidado com a saúde mental. Shemot chega como um espelho preciso. O Egito, na leitura cabalística, não é apenas um lugar geográfico, mas um estado de consciência chamado Mitzrayim, estreiteza. A mente apertada. A respiração curta. A vida reduzida à sobrevivência. O Talmud ensina que o verdadeiro exílio não é físico, é a desconexão de si. Quantos pensamentos você repete todos os dias sem perceber que eles já não te servem? Quantas dores você normalizou como se fossem parte do caráter?
Os salmos que acompanham este estudo aprofundam esse mergulho interior.
O Tehilim 61 é um pedido de abrigo emocional. “Desde os confins da terra clamo a Ti quando meu coração desfalece”. Não há vergonha no cansaço. Davi nomeia o esgotamento antes de buscar força. Em tempos de ansiedade crônica, quantas pessoas tentam ser fortes sem antes admitir que estão cansadas? A Cabalá ensina que nomear a dor já é um ato de cura, porque a luz só repousa onde há verdade.
O Tehilim 62 aprofunda o silêncio. “Somente em D-us minha alma encontra descanso”. O Zohar associa esse salmo à capacidade de aquietar as vozes internas que competem entre si. Vivemos cercados de opiniões, expectativas, cobranças. Na prática cotidiana, isso se traduz em insônia, irritabilidade, sensação de inadequação constante. Você consegue perceber a diferença entre escutar o mundo e se perder nele? O Rabino Abraham Joshua Heschel lembrava que a vida moderna sofre de uma pobreza de silêncio. Sem silêncio, não há escuta. Sem escuta, não há saúde da alma.
O Tehilim 63 nasce no deserto, lugar de escassez. “Minha alma tem sede de Ti, minha carne Te deseja numa terra árida e exausta”. Aqui, a sede não é fraqueza, é direção. Rabí Nachman de Breslov ensinava que a queda muitas vezes aponta exatamente para o lugar onde a alma deseja subir. Quantas crises emocionais são, na verdade, sinais de que algo essencial está sendo negligenciado? O deserto revela o que é indispensável.
Na parashá Shemot, o faraó sequer conhece Yosef. A memória coletiva é apagada e, com ela, a dignidade. A Cabalá explica que quando uma sociedade perde o contato com sua história, repete padrões de opressão. Em nível pessoal, quando esquecemos quem fomos em momentos de verdade, aceitamos menos do que merecemos. A saúde mental também passa por lembrar. Lembrar do que já atravessamos. Lembrar do que nos sustentou. Lembrar do nome que D-us chama quando ninguém mais chama.
Moshe surge como aquele que reluta em aceitar sua missão. “Quem sou eu para ir ao faraó?” ele pergunta. Uma pergunta profundamente humana. O Zohar observa que D-us responde não exaltando Moshe, mas prometendo presença. “Eu estarei contigo.” Não é sobre autoconfiança, é sobre acompanhamento. Quantas pessoas adoecem mentalmente tentando dar conta de tudo sozinhas? A Torá não glorifica o herói solitário. Ela apresenta um caminho de parceria, escuta e processo.
Shemot nos lembra que libertação começa quando alguém ousa nomear a opressão, interna ou externa. Janeiro Branco nos convida a falar sobre o que pesa. A Torá nos convida a lembrar quem somos antes da dor nos definir. Talvez cuidar da saúde mental seja, em essência, um ato espiritual. Um retorno ao nome. Um resgate da dignidade da alma. O que em você pede escuta antes de solução? O que precisa ser dito antes de ser resolvido?
Que esta semana seja um espaço de respiração, verdade e reconexão com o que sustenta sua vida por dentro. Que você se chame pelo nome certo. Shavua Tov. Boa semana.
Fontes:
Chabad.org, Ensinandodesiao.com.br, Zohar, Parashat Shemot, Talmud Bavli, Ensinos do Ari z”l, Rabí Nachman de Breslov e Abraham Joshua Heschel.






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