Não é agradável entrar nos corredores do hospital e sentir-se como nos seriados e filmes de ficção científica. Todo mundo de branco, envelopados, com touca, máscaras e agora mais uma de plástico para evitar secreções – mal pude reconhecê-los.
Um lado do corredor, dois suspeitos, ainda não confirmados pelos laboratoriais; do outro, cerca de vinte pessoas internadas com problemas variados, alguns respiratórios. A pedra todo dia recebe alguém. E a pedra é fria, ali o corpo aguarda o transporte.
A grande maioria dos enfermos não serão notificados; eles não têm acesso à oportunidade de saberem se estão ou não infectados. Nós também não temos. É a realidade, e também a política suja e covarde instalada nesta cidade, ou seria mais correto dizer, no país?
Eu fugi dos corredores infectados e da estrutura física, totalmente despreparada para a atual realidade. A verdade é que a saúde nunca esteve preparada, nem para um infarto, imagine para um “jogador invisível”.
Eu fugi, tranquei-me na sala e chorei. Permiti-me alguns minutos. Tentei digerir a energia que atravessou meu ser.
Por outro lado, a memória trouxe resgates. Recordei que era a segunda vez que desaguava naquele corredor. Lembrei do primeiro domingo do ano, junto às lágrimas do médico, transmutando o ódio e o choro do maqueiro. Resmunguei para meu amigo: “Esse ano, muita gente vai chorar!”
O choro não é sinal de fraqueza. Estamos preparados, mas não aptos para situações que não cabem em nossas mãos, e isso não nos torna fracos, mas sim mais fortes. Somos fortes e choramos! A alma transborda o que não pode habitar. A lágrima é externada pelo sentimento de liberação.
Naquele domingo, enquanto olhávamos para o ceifeiro, a maca escorria o sangue de uma inocente, e o hospital foi lavado com lágrimas. Hoje, foi lavado com hipocloreto, e o ceifeiro agora é invisível!
É só um desabafo.







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