1620

Desejei um jardim para chamar de meu. Frustrei, adoeci, cansei, sofri, quase morri! Ainda quero o jardim!

Olhei ao redor, só vi a ferrugem dos velhos tijolos artesanais. Que bela arquitetura, que jogo de bloco original, que encaixe perfeito. Percorri os olhos até os pilares que, singelamente, sustentariam a nobre donzela do 1620.

Mantive-me dispersa naquela marquise invadida de verde, de ervas não daninhas, e sim, terríveis as frondosas trepadeiras. Desejei invadir o calor daquela planta, agarrar o desejo como quem surge e trepa em brechas de um bloco na parede.

Desejei retirar algumas folhas, fazer uma peruca, cobrir a pele nua, enroscar-me no sumo, no extrato, e por fim, extasiar olhando para aquele abismo.

Desejei mergulhar nas profundezas celestiais, na escuridão do lodo acumulado nas águas de cristal, mas travei, mirando o céu aquático, contei todas as estrelas e descobri que eram somente sujeiras, respirando, sobrevivendo por uma vida inteira.

Sinto o cheiro da poeira do jardim… É sufocante, é asmático, mas já não inspiro como antes; estou quase em fotossíntese.

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