A lágrima desce lentamente, escorre em olhos solitários, vazios, oprimidos. Desce como quem enxerga o desespero crescer no fundo do copo.
No outro lado da calçada, uma massa é batida, sentida, doída, sem fermento, sem ovo, sem açúcar, sendo batida ao pé do fogo, que só vai assar, por ter um velho latão e alguma lenha.
O fogo arde suavemente as pálpebras, e a maçã rosada da bochecha maqueia a dor, a febre e o frio.
A fome não alcança; a esperança não alimenta a alma sofrida, a vida calejada grita em mãos vazias.
São tempos difíceis! As ruas estão geladas; a garoa constantemente faz sua vítima, que morre calada, em um “cala o frio” de mais um bendito.
Uma realidade não tão sorrateira quanto aos responsáveis.
Descreva a real causa da morte.
Identifique o corpo.
Reconheça a negligência.
Decifre a frustração.
Multiplique a problemática.
Acrescente a meritocracia.
Descarte o racismo.
O preconceito.
Retire a isenção.
Coloque altruísmo.
Tire os olhos do umbigo.
O século é contemporâneo, mas ainda são tempos de indigentes.






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