É a primeira vez que sinto a ponta da faca no endocárdio, o punhal quebrando as vértebras e a cabeça girando como um carrossel. As borboletas estão agitadas, os órgãos gritando, enquanto os pensamentos vagueiam desamparados em uma cidade escura e vazia, totalmente perdidos. Os olhos estão sangrando, olhos que veem, mas não enxergam ou não compreendem a realidade da minha função nesta missão, ou talvez, estejam negando o que não quero aceitar como verdade.
Entro na cruz e na espada, caminhando com ambas nas mãos, mas não sei qual passo é o preciso, se a palavra basta ou se o ensinamento alcança. Quantas luas terei que abrir mão para ser presença? Pego o sal e o açúcar, revisto-me do soro que alimenta esse corpo exausto e fatigado das vivências.
Não tenho fome, mas como do mundo em pedaços cruéis e dolorosos. Questiono-me: perdi o sono, o juízo, os planos, a ternura do ser destruído em ser ou não ser o plano. Que plano, Senhor? Eu nunca fiz planos; eu vivo no plano. Planando em voos desconcertantes, mergulhando em marés que afogam tudo que construí na noite passada.
E percebo que o ar sempre irá faltar-me, o ar, por mais limpo que seja, nunca irá satisfazer a alma… a fome que não existe, o ar que nunca foi palpável. Não, não sou constante. Estou marejada nas próprias lágrimas, encharcada da dúvida, com receio de não ser o que devo ser agora: a mãe responsável e amável, a mulher viva e livre, a menina sonhadora e real, a ancestral que voa e plana em vivências do tempo.
Quem devo ser agora? O ser cruel que foge, o ser leal que permanece, o ser consolador que abraça, o ser que cuida, o ser sensitivo que obedece, o ser caçador sem destino? Quem, Senhor?
Chegaste à minha casa, não foste em vão. Não suporto as lágrimas que vejo, nem ouvir os medos que habitam, nem ler os olhos silenciados… Há tanta angústia. Então, há de ter também muitos raios de sol e campos imensos de girassóis para curar tanta dor.
Dai-me, Senhor, a sabedoria que preciso, o entendimento necessário e o amor que restitui a alma dos fragilizados. Dai-me a certeza. Todavia, faça-se a vossa vontade.
Sexta-feira. Bom Shabat!







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