
Guardo o corpo
a mente, o afeto, os corpos.
O gesto que gesta o dia.
Guardo a cartola das boas-vindas.
[vais o tempo…]
Já concebeu a alma no corpo?
Guardo
em um altar de sorte,
num que embeleza
nomes, esperas e tempos.
Guardo para o que pode
chegar… ou não.
[ir corpo deste século]
Já rezou dentro do corpo?
Guardo em gestos ilusórios,
em rezos mudos, com demasiados pensamentos.
Guardo em notas erguidas,
em oferendas Descartes.
Guardo nos corpos,
nos versos floridos.
[rabisco o corpo]
Já silenciou num corpo?
Respirar,
pronta para partir…
um fôlego perdido:
Corpo irreconhecível.
Suspiro num abismo.
[ponteiro não é tempo]
Já inspirou o corpo?
Nu e mais nada
veste o corpo — cor!
Não cabe a alma, nem o espírito
neste corpo congelado,
rústico e solitário. [saídas]
Já despiu a alma do corpo?
Liberta os corpos,
joga a alma no ventre,
par no interno do corpo.
Revira o corpo ao avesso do plexo.
Sinta.
Invoca os espíritos habitantes.
Respira. [vá]
Já internou o corpo no Ser?
Cassiane Souza | Junho 2021.
Nota explicativa
O poema Corpos explora a relação entre o corpo físico e a experiência da alma, refletindo sobre a espera, o preparo e a chegada do que se deseja profundamente. Cada bloco revela uma dimensão distinta: o corpo que guarda memórias e gestos, o corpo que se confronta com a nudez e o tempo que o congela, e finalmente a liberação pelo Tempo que permite ao corpo parir e internar a própria alma.
Os colchetes funcionam como comentários reflexivos, convidando o leitor a pausar e mergulhar na experiência interna do corpo, entre o sentir e o existir. O poema propõe uma jornada de consciência, desde a espera silenciosa até a integração da alma com o corpo, ressaltando a tensão entre fragilidade, percepção e transcendência.









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