Saudade Não Mata, Ela Desestabiliza.

Saudade não mata, não fere, não grita, mas gera angústia e paralisação das vias. Matar não mata; só deixa o olhar parado num vazio e lágrimas escorrendo nos lábios. Saudade é uma doença criada por quem não descobriu o diagnóstico em alguma espécie de terapia para alguém inerte por causa de faltas injustificadas ou complexas sem nomes, endereços ou buscas. Não havia fundamento, só sintomas: solidão constante, falta de apetite, excesso de guloseimas, olhares distantes, fala desinteressada, amor platônico, gostar confuso, falta de ritmo, tempo e estima… faltas! De dinheiro ou amor, de D-us, fé ou nada; só um sentir sem nome.

Morrer sozinho é triste. Adoecer sozinho numa maca de hospital é entristecedor, lacrimal e horrente. É uma solidão cheia de saudades e amarguras, arrependimentos, destreza de pensamentos, lamentações e misericórdias. É o inferno e a redenção! Não há outra descrição. A larva é quente, o enxofre arde, e o céu é o barulho do ar condicionado.

Uma velha mulher presa num olhar meigo e perdido, sem família, ao lado, uma boneca. Saudade da filha que perderá? De alguma que nunca nasceu? Netas que não conhecem a avó? Ou um lamento por não ter mais seu amável esposo? Não importa; era um “lar social”, agora é um hospital”. E dentre todos naquela sala mórbida, ela parece a mais feliz – ao menos ao observar os outros. Nem o jovem escapa, enrolado naquele manto prateado preso a uma cama de culpa e preocupação: “O que fizemos, D-us?”.

Eu não sei o que fizeram, quanto beberam ou quanto foram negligentes e omissos, mas chegar ao corredor final da vida é voltar à sala da terapia e ganhar um diagnóstico escrito: Saudades. Apenas por não ter um nome para tanta coisa que se sucedera nestes setenta, oitenta, noventa anos, mas a terapia por aqui é só respiratória, só fisiologia.

São muitos anos. O que vamos construindo também nos afasta. Percebo isso ao olhar para meus pais. Concluo ao observar minha filha. Lamento ao chorar os filhos que não terei. Laços são desfeitos por quase nada, e nós são dados apenas para não tropeçar nos próprios sapatos. Mas muitos não têm sapatos, e os pés já foram gastos demais. E alguns não têm mais nada. São muitos “nadas” ao longo dos anos.

O que será da velhice? Da minha velhice? Sentirei saudades ou continuarei elucidando ilusões? Usando formas e sentimentos confusos, ausentes, criados e sem sentidos? Estarei saudosa! Não sei se no céu, com as gotas do ar condicionado, ou no inferno com enfermeiras amorosas.

Desejo não estar com dor. Com nenhuma delas. Serei sozinha com uma boneca ao lado? Ou com um gato laranja a me fazer espirrar todas as manhãs? Estarei doente da alma ou da mente? Esquecida e surda. Ainda terei sede? Ou choros ao olhar os sóis se pondo ao norte do meu oriente?

Meus bisnetos saberão quem fui realmente? Eu sei quem sou? Nunca soube.

Se lembrarem de mim, vá até mim. Levem-me flores amarelas, sem espinhos. Bolo de chocolate. Canela em pau para o meu nariz. Leia alguma poesia que me faça rir ou chorar de alegria. Penteiem meus longos e poucos cabelos. Por gentileza, deem-me água viva no sábado pela manhã e cantarolem Djavan à noite.

Talvez a PRES adormeça, e a mente recorda dos doces e saudosos escritos sobre saudades riscadas.

Segunda-feira, vó.

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